Dizem que a igualdade
foi inventada em França. Que uma declaração tornou as divisões
tradicionais irrelevantes para definir o que e quem era o homem. O
denominador comum seria a humanidade. Quanto mais próximo do francês (ou europeu)
livre, branco, urbano e proprietário, mais próximo da condição de humanidade
plena, completa.
Dizem que a
desumanidade foi inventada nas Américas. Não é que não houvesse antes povos
explorados e escravizados. Mas, como aquelas nações livres e igualitárias
poderiam fazer de povos inteiros objetos se estes não fossem desumanizados?
A diferença se tornou
o mecanismo de exclusão primordial no mundo que se universalizou capitalista.
Era a diferença do "outro", objeto, instrumento, mercadoria, que
construiu a grandeza do homem branco, aquele que carregava o fardo da
civilização. E este fardo foi pesado, possibilitou o acúmulo de riquezas que
hoje faz dos "grandes" países serem o que são. Pobre do "outro", que perdeu o
bonde da história, que hoje amarga os vestígios de sua condição primitiva,
nunca superada. O "outro"
que nunca se tornou um verdadeiro francês.
Dizem que as
diferenças foram inventadas pelo colonialismo e hoje não existem mais. Que
todos podemos ser franceses, até os desumanizados das Américas, que afinal,
provaram também ser homens!
Mas não só os colonizados foram subjugados à imperiosidade do
homem livre, branco e proprietário. Havia outras diferenças que reivindicaram a
possibilidade de existirem por si, enquanto serviam como meros objetos para o
deleite dos franceses. O ser “mulher” emergia
do obscuro das relações cotidianas e das opressões silenciosas. A mulher
é o “outro” porque traz também marcado no corpo a diferença que a inferioriza,
que a torna apenas natureza, instinto, sexo, muito aquém do intelecto e da moral do homem livre,
branco, urbano e proprietário, que além disso é heterossexual, porque reproduz
a sua estirpe na família, a qual começa com a apropriação do corpo feminino.
Dizem que as diferenças querem se igualar a seus referentes, completar-se
enfim, civilizar-se, afrancesar-se, masculinizar-se. Não entendem que o ser
múltiplo das diferenças é permanentemente transgressor, porque rompe os limites
do pleno e do universal, sem nunca desejar completar-se, tomar o lugar do que o
oprimiu.
Não queremos ser franceses! Queremos permanecer parciais e
contraditórias, porque parciais e contraditórios são também todos os
universais! Queremos assumir identidades que não nos prendam em categorias, que
não repitam os sentidos opacos das
velhas narrativas históricas. Queremos assumir as vozes das nossas narrativas,
queremos ser narrativas, sermos um fluxo infinito de sentidos e de traduções. Queremos
uma política da diferença, que seja poética e inconclusa, porque não queremos
nunca que a igualdade nos impeça de irmos além.
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