quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Que política é esta, cara pálida?

A reportagem da revista Carta Capital “Demandas indígenas perdem espaço na política”, publicada no dia dia 18 de outubro, constata a ausência das pautas indígenas nos debates da disputa presidencial e relata a preocupação das populações com a vitória de um Congresso Nacional mais conservador. Este mesmo Congresso Nacional tem levado adiante projetos de reforma constitucional que visam à limitação dos direitos indígenas já garantidos e inclusive a mudança das atribuições de demarcação de terras para o Legislativo, em lugar do Executivo.
Desde 1986, nenhum indígena ocupou um cargo no parlamento brasileiro, como aponta a reportagem. A antropóloga Carmem Junqueira, da PUC-SP, afirma, com base no cenário atual: “Eles vão conseguir muito mais por meio das suas próprias associações do que com o Congresso Nacional”.
Não é difícil perceber os motivos desta ausência de indígenas na política institucional, pois se trata de uma exclusão histórica que sempre lhes negou a capacidade de falarem por si e de serem reconhecidos como iguais nos ditos espaços “civilizados”. 
Acredita-se que se um índio por acaso demonstrar ter o perfil adequado para representar interesses nacionais, para além de sua tribo, então é porque deixou de ser índio, perdeu a legitimidade de falar pelo seu povo. É como se ele estivesse preso a uma condição trágica de se perder de si mesmo no momento em que consegue se expressar, o que, contraditoriamente, torna a sua expressão impossível, já que ele não é mais o mesmo, tornou-se algo diferente.
Achar que índio não pode fazer política em palanques, apenas em associações, é se conformar com os limites da democracia representativa, com o fato desta ter sido forjada segundo a linguagem das elites brancas, detentoras de poder econômico, e que não pode se tornar algo diferente. 
Achar que basta ao índio ocupar um lugar afastado dos espaços hegemônicos, a fim de preservar a integridade do seu ser, é acreditar ainda na falácia moderna que separa o selvagem do civilizado em lugares radicalmente diferentes, sendo o lugar do primeiro um cenário exótico, estático, apolítico.   

A política não se dissocia do poder. O poder determina sentidos, lugares, transforma realidades, pessoas, coisas e países. Não há como dar espaço ao índio na política se a política indígena perpetuar o seu lugar de exotismo, apartado das relações concretas de poder. 
Por isso, para que a política se transforme, não bastam reformas institucionais, como a tão falada reforma política, embora elas sejam necessárias. É preciso ainda que a política dê novos sentidos ao poder, renovando o poder dos sentidos, para que ser índio, ou viver em uma democracia, não signifique sempre aquilo que as elites brancas e coloniais nos impuseram.  
Mário Juruna, parlamentar indígena

Nenhum comentário:

Postar um comentário