Esta
imagem, que retrata índios brasileiros captados pela lente de Sebastião
Salgado, ficará emoldurada dentro de um dos salões do Palácio do Itamaraty, em
local vedado à visitação, destinado apenas aos representantes oficiais das
diferentes nações que visitam e travam relações amigáveis com nosso país.
Irônico que uma imagem exprima o que há de mais significativo da nacionalidade
brasileira, o que há de mais original e originário da construção da nossa
identidade, a ponto de ser tomado como símbolo e representação do que somos, e,
ao mesmo tempo, exprima tudo o que os dirigentes da nação sempre negaram como
possível e legítimo de existir.
Na
verdade, é bastante significativo que a entrada dos índios no espaço onde o Estado
brasileiro manifesta sua soberania se dê nos limites de uma moldura. Ai deles
se ousarem ocupar de outra forma, reivindicarem um lugar que esteja para além do
passado ou da selva bucólica! Ou das lentes de Sebastião Salgado, cujas
exposições fotográficas são belíssimas! Grande fotógrafo, eleva a imagem do
Brasil lá fora, faz parecer que a nossa terra é selvagem apenas no sentido bom,
aquele que dizem ser inspirado em Rousseau.
Os
índios de verdade (isso existe?!!), aqueles fora da moldura, não são relevantes
às políticas internacionais, não entram no projeto de nação que desde os
primórdios da colonização portuguesa parecemos querer formatar: o de nos
tornarmos civilizados. Houve diferentes tipos de moldura ao longo do tempo. Em
momentos, ela significava integração, emancipação da condição primitiva e
incivilizada. Em seguida, passou a significar isolamento, preservação do
indígena em seu habitat nativo.
Hoje,
como não querem dar mais espaço ao índio, porque ele parece querer se apropriar
de todo o território nacional, basta a moldura do retrato mesmo, é mais seguro.
Inimigos, traidores, pararam no tempo, não querem se integrar, não querem
aceitar a inevitabilidade do
capitalismo, a necessidade do desenvolvimento, a urgência do
crescimento! Não são índios de verdade, são aproveitadores, que se comunicam
por smartphones, dizendo que a nova onda é garantir a parcela de terra que os
governo socialista distribui!
Bom mesmo é o índio legítimo, que preserva as
tradições, não fala a nossa língua, não contesta o nosso modo de vida, não
incomoda o nosso sossego, sabe o seu lugar. Bom mesmo é no capitalismo, onde você
tem a liberdade de ser o que quiser, de comprar um tapete de motivo étnico para a sua sala, acompanhado
de um quadro que emoldure índios retratados por Sebastião Salgado. Isso se você
puder pagar, porque eles estão pela hora da morte! Barato mesmo é tirar a vida
de um índio.

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